Como ler a conta de luz: cada campo da fatura explicado com exemplo de 2026

Ler a conta de luz é mais simples do que parece quando você sabe que ela tem só quatro blocos: quanto você consumiu (kWh), quanto custa cada kWh (TE e TUSD, mais a bandeira), o que o governo cobra em cima (PIS, COFINS, ICMS) e o que a prefeitura cobra junto (iluminação pública). Todo o resto é identificação, histórico e aviso.
O problema é que cada distribuidora desenha a fatura do seu jeito e usa nomes diferentes para a mesma coisa. "Energia elétrica", "energia ativa fornecida", "consumo TE" e "consumo TUSD" podem ser a mesma linha dividida em duas. O Idec mediu isso: 97,2% dos associados consultados pediram legendas na conta. Este artigo é a legenda.
Vamos campo a campo, na ordem em que eles aparecem na maioria das faturas, com um exemplo numérico de outubro de 2026 na tarifa da Cemig e, no fim, onde apareceria o crédito de quem tem energia por assinatura.
O que vem no cabeçalho: unidade consumidora, datas e vencimento
Antes de qualquer número em reais, a conta identifica quem você é para a distribuidora:
- Unidade consumidora (UC), também chamada de "número do cliente", "conta contrato" ou "código da instalação". É o número que você dá em qualquer atendimento. Não é o CPF.
- Classe e subclasse: "Residencial", "Residencial Baixa Renda" (quem tem Tarifa Social), "Rural", "Comercial". Se você tem direito à Tarifa Social e aqui está escrito só "Residencial", o benefício não está ativo. Veja Tarifa Social de energia.
- Tipo de ligação: monofásica, bifásica ou trifásica. Define o custo de disponibilidade, que explico mais abaixo.
- Modalidade tarifária: "Convencional" para quase todo mundo; "Branca" para quem optou pela tarifa por horário. Se está "Convencional", o horário em que você usa energia não muda o preço. Explicamos isso no artigo sobre tarifa branca e horário de pico.
- Datas de leitura anterior, leitura atual e próxima leitura, mais a quantidade de dias do ciclo. Um ciclo de 33 dias custa mais que um de 29, mesmo com o mesmo hábito. Quando a conta "veio alta", confira primeiro quantos dias ela cobre.
- Vencimento, mês de referência e número do medidor. Confira o número do medidor com o que está gravado no aparelho do seu padrão. Se não bate, você está pagando o consumo de outra unidade.
Consumo em kWh: leitura anterior, leitura atual e o histórico

O consumo é a diferença entre duas leituras do medidor:
Consumo (kWh) = leitura atual − leitura anterior
Se a leitura anterior foi 14.350 e a atual 14.550, você consumiu 200 kWh. As duas leituras aparecem na conta, geralmente perto das datas. Se em vez de "leitura" estiver escrito "estimada", "média" ou "faturamento por estimativa", o leiturista não chegou ao medidor e a distribuidora chutou pelo seu histórico. O acerto vem na conta seguinte, e é a causa mais comum de "conta que dobrou". Como corrigir está em conta de luz pela média.
Logo abaixo ou ao lado vem o histórico de consumo: 12 ou 13 meses em barras ou tabela. É o campo mais útil da conta inteira e o menos olhado. Compare o mês atual com o mesmo mês do ano passado, não com o mês anterior: ar-condicionado em fevereiro e chuveiro em julho mudam tudo. Se o kWh é parecido e a conta subiu, o problema é o preço, e o artigo conta de luz muito alta mostra como calcular o reajuste da sua distribuidora.
Algumas faturas trazem ainda a média diária (kWh dividido pelos dias do ciclo). Ela corrige a diferença entre ciclos de 29 e 33 dias e é o melhor número para comparar mês a mês.
TE e TUSD: por que a energia aparece em duas linhas
Aqui está a parte que mais confunde. O preço do kWh que a ANEEL homologa para a sua distribuidora é a soma de duas tarifas:
- TE (Tarifa de Energia): paga a energia em si, gerada pelas usinas e comprada pela distribuidora.
- TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição): paga o uso dos fios, postes, transformadores e a operação da distribuidora, mais encargos setoriais embutidos.
Na tarifa residencial B1 da Cemig em out/2026, a soma das duas dá R$ 0,9033 por kWh, antes de impostos (ANEEL, dados abertos). Na CPFL Paulista a soma é R$ 0,7395; na Enel SP, R$ 0,7894; na Copel, R$ 0,7680; na Coelba, R$ 0,8777; na Light, R$ 0,8806. A divisão exata entre TE e TUSD muda por distribuidora e está impressa na sua conta, em geral como duas linhas com o mesmo kWh e preços unitários diferentes.
Para conferir, some os valores em reais das duas linhas e divida pelo kWh. O resultado deve bater com a tarifa homologada da sua distribuidora antes de impostos. Os valores de todas as distribuidoras que atendemos estão em valor do kWh.
Bandeira tarifária: a linha que muda de mês em mês
A bandeira é um adicional por 100 kWh que a ANEEL define todo mês, conforme o custo da geração. Em 2026 os valores, antes de impostos, são:
| Bandeira | Adicional por 100 kWh | Por kWh |
|---|---|---|
| Verde | R$ 0 | R$ 0 |
| Amarela | R$ 1,885 | R$ 0,01885 |
| Vermelha patamar 1 | R$ 4,463 | R$ 0,04463 |
| Vermelha patamar 2 | R$ 7,877 | R$ 0,07877 |
Na conta ela aparece como "adicional de bandeira", "bandeira amarela" ou "bandeira tarifária", com o kWh e o valor. Em outubro de 2026 a bandeira é verde, então a linha vem zerada ou nem aparece. De maio a setembro de 2026 foi amarela. Se a sua conta de outubro mostra bandeira amarela, pode ser o ciclo de leitura que pegou dias de setembro; a distribuidora rateia pelos dias. A bandeira do mês e o calendário de anúncios da ANEEL estão em bandeira tarifária.
Tributos: PIS, COFINS e ICMS
Três tributos entram na conta, e os três são calculados "por dentro": a alíquota incide sobre o valor total já com o tributo embutido, o que faz o peso real ser maior do que o número sugere.
- PIS e COFINS são federais e as alíquotas mudam todo mês, porque dependem dos créditos que a distribuidora apurou. Na conta aparecem com percentual e valor.
- ICMS é estadual. A alíquota sobre energia residencial varia por estado e, em alguns, por faixa de consumo. Está impressa na conta como "alíquota ICMS" ou "base de cálculo ICMS". É o maior dos três.
Segundo a composição média divulgada pela ANEEL, tributos respondem por cerca de 18% da conta e encargos setoriais por outros 15%, somados a 30% de energia, 26% de distribuição e 10% de transmissão. O Idec estima que encargos e tributos passam de 40% do valor pago. Ou seja: quase metade da sua conta não é energia.
Um detalhe que explica por que o desconto da assinatura muda de estado para estado: o tratamento do ICMS sobre a energia compensada não é igual em todo lugar. Em Minas ele é zero; em São Paulo há cobrança. É uma das razões de o desconto ser 20% em MG e 10% em SP.
CIP: a iluminação pública que vem na conta de luz

A Contribuição para Iluminação Pública (CIP ou COSIP) não é da distribuidora. É um tributo municipal, criado por lei da sua prefeitura, que a distribuidora só arrecada e repassa. O valor pode ser fixo por faixa de consumo ou um percentual, e muda de cidade para cidade. Aparece como "contrib. ilum. pública", "CIP", "COSIP" ou "iluminação pública".
Dois pontos práticos: a CIP é cobrada mesmo de quem tem Tarifa Social ou energia por assinatura, e reclamação sobre ela vai para a prefeitura, não para a distribuidora nem para a ANEEL.
Custo de disponibilidade: o mínimo que você paga mesmo sem consumir
Toda unidade consumidora paga um consumo mínimo pelo simples fato de estar ligada à rede, chamado custo de disponibilidade:
| Tipo de ligação | Mínimo faturado |
|---|---|
| Monofásica | 30 kWh |
| Bifásica | 50 kWh |
| Trifásica | 100 kWh |
Se você consumiu menos que isso (casa de praia fechada, imóvel vazio), a conta vem pelo mínimo. Se consumiu mais, o custo de disponibilidade não aparece como linha separada; está dentro do consumo. Ele só volta a ser visível quando entra energia compensada: a distribuidora continua faturando pelo menos esses kWh, não importa quanto crédito você tenha. É por isso que nenhuma assinatura "zera" a conta da distribuidora.
Exemplo numérico de 2026: uma conta de 200 kWh na Cemig
Vamos montar uma conta didática com a tarifa B1 da Cemig em out/2026 (R$ 0,9033 por kWh, ANEEL), bandeira verde, ligação bifásica, 200 kWh. Para os tributos, usei premissas redondas que você deve trocar pelas da sua conta: PIS e COFINS somando 4,5% e ICMS de 18%. A CIP é um valor hipotético de R$ 12,00, porque cada município tem o seu.
| Campo da fatura | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Consumo (leitura 14.550 − 14.350) | 200 kWh | |
| Energia (TE + TUSD) | 200 × R$ 0,9033 | R$ 180,66 |
| Bandeira verde | 200 × R$ 0 | R$ 0,00 |
| Base com tributos por dentro | R$ 180,66 ÷ (1 − 0,045 − 0,18) | R$ 233,11 |
| PIS e COFINS (4,5% da base) | R$ 10,49 | |
| ICMS (18% da base) | R$ 41,96 | |
| Subtotal distribuidora | R$ 233,11 | |
| CIP (município) | R$ 12,00 | |
| Total da conta | R$ 245,11 |
Repare: de R$ 245,11, só R$ 180,66 são energia e fio. R$ 52,45 são tributos e R$ 12,00 é a prefeitura. Se o mês fosse de bandeira vermelha patamar 2, entraria mais uma linha de 200 × R$ 0,07877 = R$ 15,75 antes de tributos, uns R$ 20 depois deles.
Onde apareceria o crédito da energia por assinatura
Agora a mesma casa, mesma Cemig, mesmo consumo de 200 kWh, com energia por assinatura. Em Minas o desconto é de 20% sobre a energia compensada. Pela Lei 14.300/2022, a usina solar injeta energia na rede da Cemig e essa energia aparece na sua conta como crédito, dentro do Sistema de Compensação de Energia Elétrica.
Na fatura da distribuidora surgem campos novos:
- Energia injetada ou energia compensada: o kWh que veio da usina e foi abatido, com sinal negativo. No exemplo, 150 kWh.
- Energia faturada: o que sobrou para a distribuidora cobrar. Como a ligação é bifásica, nunca menos que 50 kWh.
- Saldo de créditos: kWh que sobraram para os meses seguintes. Créditos valem 60 meses.
E você passa a receber dois boletos:
| Conta da distribuidora | Boleto da Hive | Soma | |
|---|---|---|---|
| Energia faturada | 50 kWh × R$ 0,9033 = R$ 45,17, com tributos R$ 58,28 | ||
| Energia compensada | 150 kWh (crédito) | 150 kWh pelo preço cheio com tributos (R$ 174,83) menos 20% = R$ 139,86 | |
| CIP | R$ 12,00 | ||
| Total | R$ 70,28 | R$ 139,86 | R$ 210,14 |
Antes: R$ 245,11. Depois: R$ 210,14. Economia de R$ 34,97 por mês, cerca de 14% da conta total. O desconto é de 20%, mas sobre a parte compensada; o custo de disponibilidade, a CIP e os tributos sobre o que a distribuidora ainda fatura continuam. É exatamente por isso que a gente diz "de 10% a 20% sobre a energia compensada" e não "20% na conta".
Dois avisos sobre esse exemplo. Primeiro, é didático: a conta real pode ter uma parcela da TUSD cobrada sobre a energia compensada, conforme a regra de transição da Lei 14.300, e o tratamento tributário varia por estado; o simulador faz o cálculo com os dados da sua fatura. Segundo, o primeiro crédito só aparece de 60 a 90 dias depois do cadastro, prazo da distribuidora para vincular a sua unidade à usina. A conta aberta com mais cenários está em como fica a conta de luz com energia por assinatura.
Outros campos que podem aparecer
- Encargos setoriais (CDE, Proinfa, ESS): em geral já estão embutidos na TUSD, mas algumas faturas os destacam em nota. A CDE é o maior e financia, entre outras coisas, a própria Tarifa Social.
- Multa e juros: cobrados sobre conta anterior paga em atraso, com percentual e período.
- Parcelamento ou débito de acordo: parcelas de negociação anterior.
- Desconto Tarifa Social ou Desconto Social: linha negativa para quem está na subclasse Baixa Renda ou na faixa do Desconto Social criado em 2026.
- Avisos: débitos anteriores, reaviso de corte, mudança de tarifa, data do reajuste. Leia; é ali que a distribuidora informa o reajuste anual.
- QR code e código de barras: confira se o beneficiário é a distribuidora. Boleto de energia por assinatura vem em documento separado, com o nome da geradora.
Com a conta decifrada, a pergunta que fica é quanto dela você consegue reduzir. A parte dos tributos e da CIP, ninguém. A parte do consumo, você, com as dicas de como economizar energia. A parte do preço da energia compensada, a assinatura, com 10% a 20% conforme o estado. O simulador lê a sua fatura e devolve o número.
Perguntas frequentes
O que é TE e TUSD na conta de luz?
TE é a Tarifa de Energia, que paga a energia gerada. TUSD é a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição, que paga os fios, postes e a operação da distribuidora, com encargos embutidos. A soma das duas é a tarifa homologada pela ANEEL; na Cemig, em out/2026, R$ 0,9033 por kWh antes de impostos.
O que é CIP na conta de luz?
É a Contribuição para Iluminação Pública, um tributo do município que a distribuidora apenas arrecada. O valor é definido por lei municipal e varia por cidade. É cobrada mesmo de quem tem Tarifa Social ou energia por assinatura, e reclamação sobre ela é com a prefeitura.
O que é custo de disponibilidade?
É o consumo mínimo que toda unidade paga por estar ligada à rede: 30 kWh (monofásica), 50 kWh (bifásica) ou 100 kWh (trifásica). Se você consome menos, paga o mínimo. Com energia por assinatura, a distribuidora continua faturando pelo menos esses kWh, por isso a conta dela nunca zera.
Como calcular o consumo pela leitura do medidor?
Consumo em kWh é a leitura atual menos a leitura anterior, as duas impressas na conta. Se a fatura diz "estimada" ou "média", a leitura não foi feita e o acerto vem depois. Para tirar a leitura certa no aparelho, veja o artigo sobre como ler o medidor.
Por que os impostos da conta de luz são tão altos?
Porque PIS, COFINS e ICMS são calculados "por dentro", sobre o valor que já inclui o tributo, e porque a TUSD carrega encargos setoriais. Pela composição média da ANEEL, tributos são cerca de 18% da conta e encargos 15%; o Idec estima mais de 40% somando os dois.
Onde aparece o desconto da energia por assinatura na conta?
Na fatura da distribuidora aparecem "energia injetada" ou "compensada" (com sinal negativo), "energia faturada" e "saldo de créditos". O desconto em si está no boleto separado da geradora, que cobra a energia compensada com 10% a 20% a menos conforme o estado. A soma dos dois boletos fica abaixo da conta antiga.
A bandeira tarifária aparece na conta mesmo quando está verde?
Em algumas distribuidoras a linha aparece zerada; em outras some. Se a sua conta de um mês verde mostra bandeira amarela, pode ser rateio de dias do ciclo anterior. Se o ciclo inteiro foi em mês verde e cobraram amarela, conteste.
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- https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/tarifas
- https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/geracao-distribuida
- https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/noticias/2026/bandeira-tarifaria-aneel-divulga-calendario-de-acionamento-para-2026
- https://idec.org.br/release/idec-lanca-ferramenta-que-explica-e-calcula-conta-de-luz
- https://planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Lei/L14300.htm



