Como ler a conta de luz: cada campo da fatura explicado com exemplo de 2026

Conta de luz altaEquipe Pagar Menos na LuzAtualizado em 25 de out. de 202611 min de leitura
Dedo aponta para uma linha da conta de luz impressa sobre a mesa

Ler a conta de luz é mais simples do que parece quando você sabe que ela tem só quatro blocos: quanto você consumiu (kWh), quanto custa cada kWh (TE e TUSD, mais a bandeira), o que o governo cobra em cima (PIS, COFINS, ICMS) e o que a prefeitura cobra junto (iluminação pública). Todo o resto é identificação, histórico e aviso.

O problema é que cada distribuidora desenha a fatura do seu jeito e usa nomes diferentes para a mesma coisa. "Energia elétrica", "energia ativa fornecida", "consumo TE" e "consumo TUSD" podem ser a mesma linha dividida em duas. O Idec mediu isso: 97,2% dos associados consultados pediram legendas na conta. Este artigo é a legenda.

Vamos campo a campo, na ordem em que eles aparecem na maioria das faturas, com um exemplo numérico de outubro de 2026 na tarifa da Cemig e, no fim, onde apareceria o crédito de quem tem energia por assinatura.

O que vem no cabeçalho: unidade consumidora, datas e vencimento

Antes de qualquer número em reais, a conta identifica quem você é para a distribuidora:

Consumo em kWh: leitura anterior, leitura atual e o histórico

Medidor de luz antigo com disco de alumínio em parede desgastada
O consumo do mês é a diferença entre a leitura atual e a anterior do medidor.

O consumo é a diferença entre duas leituras do medidor:

Consumo (kWh) = leitura atual − leitura anterior

Se a leitura anterior foi 14.350 e a atual 14.550, você consumiu 200 kWh. As duas leituras aparecem na conta, geralmente perto das datas. Se em vez de "leitura" estiver escrito "estimada", "média" ou "faturamento por estimativa", o leiturista não chegou ao medidor e a distribuidora chutou pelo seu histórico. O acerto vem na conta seguinte, e é a causa mais comum de "conta que dobrou". Como corrigir está em conta de luz pela média.

Logo abaixo ou ao lado vem o histórico de consumo: 12 ou 13 meses em barras ou tabela. É o campo mais útil da conta inteira e o menos olhado. Compare o mês atual com o mesmo mês do ano passado, não com o mês anterior: ar-condicionado em fevereiro e chuveiro em julho mudam tudo. Se o kWh é parecido e a conta subiu, o problema é o preço, e o artigo conta de luz muito alta mostra como calcular o reajuste da sua distribuidora.

Algumas faturas trazem ainda a média diária (kWh dividido pelos dias do ciclo). Ela corrige a diferença entre ciclos de 29 e 33 dias e é o melhor número para comparar mês a mês.

TE e TUSD: por que a energia aparece em duas linhas

Aqui está a parte que mais confunde. O preço do kWh que a ANEEL homologa para a sua distribuidora é a soma de duas tarifas:

Na tarifa residencial B1 da Cemig em out/2026, a soma das duas dá R$ 0,9033 por kWh, antes de impostos (ANEEL, dados abertos). Na CPFL Paulista a soma é R$ 0,7395; na Enel SP, R$ 0,7894; na Copel, R$ 0,7680; na Coelba, R$ 0,8777; na Light, R$ 0,8806. A divisão exata entre TE e TUSD muda por distribuidora e está impressa na sua conta, em geral como duas linhas com o mesmo kWh e preços unitários diferentes.

Para conferir, some os valores em reais das duas linhas e divida pelo kWh. O resultado deve bater com a tarifa homologada da sua distribuidora antes de impostos. Os valores de todas as distribuidoras que atendemos estão em valor do kWh.

Bandeira tarifária: a linha que muda de mês em mês

A bandeira é um adicional por 100 kWh que a ANEEL define todo mês, conforme o custo da geração. Em 2026 os valores, antes de impostos, são:

Bandeira Adicional por 100 kWh Por kWh
Verde R$ 0 R$ 0
Amarela R$ 1,885 R$ 0,01885
Vermelha patamar 1 R$ 4,463 R$ 0,04463
Vermelha patamar 2 R$ 7,877 R$ 0,07877

Na conta ela aparece como "adicional de bandeira", "bandeira amarela" ou "bandeira tarifária", com o kWh e o valor. Em outubro de 2026 a bandeira é verde, então a linha vem zerada ou nem aparece. De maio a setembro de 2026 foi amarela. Se a sua conta de outubro mostra bandeira amarela, pode ser o ciclo de leitura que pegou dias de setembro; a distribuidora rateia pelos dias. A bandeira do mês e o calendário de anúncios da ANEEL estão em bandeira tarifária.

Tributos: PIS, COFINS e ICMS

Três tributos entram na conta, e os três são calculados "por dentro": a alíquota incide sobre o valor total já com o tributo embutido, o que faz o peso real ser maior do que o número sugere.

Segundo a composição média divulgada pela ANEEL, tributos respondem por cerca de 18% da conta e encargos setoriais por outros 15%, somados a 30% de energia, 26% de distribuição e 10% de transmissão. O Idec estima que encargos e tributos passam de 40% do valor pago. Ou seja: quase metade da sua conta não é energia.

Um detalhe que explica por que o desconto da assinatura muda de estado para estado: o tratamento do ICMS sobre a energia compensada não é igual em todo lugar. Em Minas ele é zero; em São Paulo há cobrança. É uma das razões de o desconto ser 20% em MG e 10% em SP.

CIP: a iluminação pública que vem na conta de luz

Poste de iluminação pública aceso ao anoitecer em rua de bairro
A CIP é da prefeitura: a distribuidora só arrecada e repassa, e reclamação sobre ela vai para o município.

A Contribuição para Iluminação Pública (CIP ou COSIP) não é da distribuidora. É um tributo municipal, criado por lei da sua prefeitura, que a distribuidora só arrecada e repassa. O valor pode ser fixo por faixa de consumo ou um percentual, e muda de cidade para cidade. Aparece como "contrib. ilum. pública", "CIP", "COSIP" ou "iluminação pública".

Dois pontos práticos: a CIP é cobrada mesmo de quem tem Tarifa Social ou energia por assinatura, e reclamação sobre ela vai para a prefeitura, não para a distribuidora nem para a ANEEL.

Custo de disponibilidade: o mínimo que você paga mesmo sem consumir

Toda unidade consumidora paga um consumo mínimo pelo simples fato de estar ligada à rede, chamado custo de disponibilidade:

Tipo de ligação Mínimo faturado
Monofásica 30 kWh
Bifásica 50 kWh
Trifásica 100 kWh

Se você consumiu menos que isso (casa de praia fechada, imóvel vazio), a conta vem pelo mínimo. Se consumiu mais, o custo de disponibilidade não aparece como linha separada; está dentro do consumo. Ele só volta a ser visível quando entra energia compensada: a distribuidora continua faturando pelo menos esses kWh, não importa quanto crédito você tenha. É por isso que nenhuma assinatura "zera" a conta da distribuidora.

Exemplo numérico de 2026: uma conta de 200 kWh na Cemig

Vamos montar uma conta didática com a tarifa B1 da Cemig em out/2026 (R$ 0,9033 por kWh, ANEEL), bandeira verde, ligação bifásica, 200 kWh. Para os tributos, usei premissas redondas que você deve trocar pelas da sua conta: PIS e COFINS somando 4,5% e ICMS de 18%. A CIP é um valor hipotético de R$ 12,00, porque cada município tem o seu.

Campo da fatura Cálculo Valor
Consumo (leitura 14.550 − 14.350) 200 kWh
Energia (TE + TUSD) 200 × R$ 0,9033 R$ 180,66
Bandeira verde 200 × R$ 0 R$ 0,00
Base com tributos por dentro R$ 180,66 ÷ (1 − 0,045 − 0,18) R$ 233,11
PIS e COFINS (4,5% da base) R$ 10,49
ICMS (18% da base) R$ 41,96
Subtotal distribuidora R$ 233,11
CIP (município) R$ 12,00
Total da conta R$ 245,11

Repare: de R$ 245,11, só R$ 180,66 são energia e fio. R$ 52,45 são tributos e R$ 12,00 é a prefeitura. Se o mês fosse de bandeira vermelha patamar 2, entraria mais uma linha de 200 × R$ 0,07877 = R$ 15,75 antes de tributos, uns R$ 20 depois deles.

Onde apareceria o crédito da energia por assinatura

Agora a mesma casa, mesma Cemig, mesmo consumo de 200 kWh, com energia por assinatura. Em Minas o desconto é de 20% sobre a energia compensada. Pela Lei 14.300/2022, a usina solar injeta energia na rede da Cemig e essa energia aparece na sua conta como crédito, dentro do Sistema de Compensação de Energia Elétrica.

Na fatura da distribuidora surgem campos novos:

E você passa a receber dois boletos:

Conta da distribuidora Boleto da Hive Soma
Energia faturada 50 kWh × R$ 0,9033 = R$ 45,17, com tributos R$ 58,28
Energia compensada 150 kWh (crédito) 150 kWh pelo preço cheio com tributos (R$ 174,83) menos 20% = R$ 139,86
CIP R$ 12,00
Total R$ 70,28 R$ 139,86 R$ 210,14

Antes: R$ 245,11. Depois: R$ 210,14. Economia de R$ 34,97 por mês, cerca de 14% da conta total. O desconto é de 20%, mas sobre a parte compensada; o custo de disponibilidade, a CIP e os tributos sobre o que a distribuidora ainda fatura continuam. É exatamente por isso que a gente diz "de 10% a 20% sobre a energia compensada" e não "20% na conta".

Dois avisos sobre esse exemplo. Primeiro, é didático: a conta real pode ter uma parcela da TUSD cobrada sobre a energia compensada, conforme a regra de transição da Lei 14.300, e o tratamento tributário varia por estado; o simulador faz o cálculo com os dados da sua fatura. Segundo, o primeiro crédito só aparece de 60 a 90 dias depois do cadastro, prazo da distribuidora para vincular a sua unidade à usina. A conta aberta com mais cenários está em como fica a conta de luz com energia por assinatura.

Outros campos que podem aparecer

Com a conta decifrada, a pergunta que fica é quanto dela você consegue reduzir. A parte dos tributos e da CIP, ninguém. A parte do consumo, você, com as dicas de como economizar energia. A parte do preço da energia compensada, a assinatura, com 10% a 20% conforme o estado. O simulador lê a sua fatura e devolve o número.

Perguntas frequentes

O que é TE e TUSD na conta de luz?

TE é a Tarifa de Energia, que paga a energia gerada. TUSD é a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição, que paga os fios, postes e a operação da distribuidora, com encargos embutidos. A soma das duas é a tarifa homologada pela ANEEL; na Cemig, em out/2026, R$ 0,9033 por kWh antes de impostos.

O que é CIP na conta de luz?

É a Contribuição para Iluminação Pública, um tributo do município que a distribuidora apenas arrecada. O valor é definido por lei municipal e varia por cidade. É cobrada mesmo de quem tem Tarifa Social ou energia por assinatura, e reclamação sobre ela é com a prefeitura.

O que é custo de disponibilidade?

É o consumo mínimo que toda unidade paga por estar ligada à rede: 30 kWh (monofásica), 50 kWh (bifásica) ou 100 kWh (trifásica). Se você consome menos, paga o mínimo. Com energia por assinatura, a distribuidora continua faturando pelo menos esses kWh, por isso a conta dela nunca zera.

Como calcular o consumo pela leitura do medidor?

Consumo em kWh é a leitura atual menos a leitura anterior, as duas impressas na conta. Se a fatura diz "estimada" ou "média", a leitura não foi feita e o acerto vem depois. Para tirar a leitura certa no aparelho, veja o artigo sobre como ler o medidor.

Por que os impostos da conta de luz são tão altos?

Porque PIS, COFINS e ICMS são calculados "por dentro", sobre o valor que já inclui o tributo, e porque a TUSD carrega encargos setoriais. Pela composição média da ANEEL, tributos são cerca de 18% da conta e encargos 15%; o Idec estima mais de 40% somando os dois.

Onde aparece o desconto da energia por assinatura na conta?

Na fatura da distribuidora aparecem "energia injetada" ou "compensada" (com sinal negativo), "energia faturada" e "saldo de créditos". O desconto em si está no boleto separado da geradora, que cobra a energia compensada com 10% a 20% a menos conforme o estado. A soma dos dois boletos fica abaixo da conta antiga.

A bandeira tarifária aparece na conta mesmo quando está verde?

Em algumas distribuidoras a linha aparece zerada; em outras some. Se a sua conta de um mês verde mostra bandeira amarela, pode ser rateio de dias do ciclo anterior. Se o ciclo inteiro foi em mês verde e cobraram amarela, conteste.

PL
Equipe Pagar Menos na Luz

Site mantido por um licenciado independente da Hive Energy. Escrevemos sobre conta de luz, tarifas e energia por assinatura com a conta aberta: a premissa de cada número e a fonte de cada tarifa. Saiba mais.

Leia também